Portas abertas: FoFo, Ana Rita Teodoro

10 de março, 15h30
Espaço Alkantara
entrada livre

Ana Rita Teodoro, estará em residência no estúdio do Espaço Alkantara durante três semanas a trabalhar no FoFo, a sua próxima peça. Poucos dias antes de arrumar a sua cenografia e partir para Paris, onde peça irá estrear, Ana Rita convida-nos para um momento de partilha informal daquilo que virá a ser o FoFo.

“A peça FoFo tem como ponto de partida o kawaii, um modo de vida enraizado na cultura japonesa. No campo semântico refere-se à ideia de vulnerabilidade e fragilidade, a pessoas, imagens ou objectos adoráveis. O cute em Inglês, mi-mi em Francês, fofo em Português, encontra-se codificado em todos os lugares. Relacionado com o mundo infantil e tendencialmente feminino, expressa-se pelas suas muitas cores, pelas suas formas redondas e tranquilizadoras, pela sua passividade, maleabilidade e desproporção das mascotes que apresenta (olhos grandes, boca pequena, etc).

Intrigada com a ambivalência desta relação com o mundo analisei algumas das questões físicas e políticas levantadas pela estética “fofinha”. Devemos olha-la como símbolo de um consumismo regressivo e uma forma de apaziguamento do pensamento critico? Ou como um elogio à fragilidade, às coisas de pouca acção e, como potencial gesto contra aquilo que é duro e pré-estabelecido? Não negando a primeira opção foi sobretudo, na segunda opção que me concentrei. Tentando olhar para o fofinho como um possível gesto de rebelião e de emancipação e tentar ao fazer uma peça de dança “fofa” libertar este conceito dos preconceitos, abrindo o seu campo interpretativo.

-#READMORE#-

Como extensão e contraponto ao conceito “fofinho”, quis olhar para o subjectivo que coordena o “corpo-adolescente”. Porque o “corpo-adolescente”, essa metamorfose ambulante (citando Raul Seixas), está na fronteira entre o mundo infantil e o mundo adulto, entre o mundo macio e o mundo concreto. Comecei por seguir nas redes sociais, figuras como Haruka Kurebayashi e Lin Lin Doll, que assumiram um modo de vida kawaii e recriaram assim, o seu destino tão facilmente marcado pela sociedade japonesa (e em geral). Raparigas e rapazes livres (até determinado alcance) das normas impostas –vestem-se de forma não-normativa, comem de forma não-normativa, trabalham pelas suas convicções. De seguida olhei para os corpos-adolescentes presentes no cinema de Larry Clark e Harmony Korine. Nos seus filmes fui marcada pela sensação de um “presente extremo”, criado pelo contexto social difícil, estes adolescentes e crianças ocupam-se a sobreviver tirando o maior prazer possível do seu contexto. Se no caso do kawaii o movimento temporal a adoptar é o de retrocesso (infantilização), os adolescentes de Harmony e Clark vivem num presente extremo, onde o futuro nunca se apresenta.

A adolescência é marcada pela pressão de escolher um futuro. Considero que estas “pressões” são extremamente violentas e castradoras. A obsessão com o futuro cria problemas porque obriga a escolher rapidamente caminhos já traçados e obriga a pensar como os outros, em vez de pensar por si mesmo. Mas é claro que a negação de um futuro também cria problemas… A peça FoFo encontra-se no limbo desta questão, por um lado a necessidade de construir um presente sem recriar futuros tóxicos, por outro o tempo que avança, que pede concretude e pão na boca.

A peça FoFo não reproduz estéticas associadas ao fofinho mas tenta transcrever alguns dos seus processos. Porque FoFo é uma peça de dança, o que a define são um conjunto de danças sem futuro, concretudes soltas ao acaso, mudanças de projecto, processos de “monstrificação” e constatações “senxuais” (sensuais e sexuais). Que acontecem na tentação de um espaço cénico de um extremo-presente habitado por corpos de baixa tonicidade, macios, maleáveis, resistentes à violência, saborosos e entusiasmados.”

Ana Rita T

 

Ficha Técnica

Concepção coreográfica Ana Rita Teodoro
Cenografia Salahdyn Khatir
Desenho de luz Eduardo Abdala
Desenho de som Jérèmie Sananes
Produção e difusão Associação Parasita/Sinara Suzin
Fotografia José Carlos Duarte
Em colaboração com Marcela Santander Corvalàn, João dos Santos Martins, Kazuki Fujita, Ana Rita Teodoro
Com apoio de Fundação d’entreprise Hermès/New Settings
Coprodução Centre National de la Danse (Pantin), CCN Caen en Normandie (residence-studio), Materiais Diversos
Apoio Fundação GDA, Alkantara

Ana Rita Teodoro é artista associada do Centre National de la Danse, CND (Pantin), desde 2017.

Nota Biográfica

Ana Rita Teodoro. Barreiro, 1982. É coreógrafa e bailarina. Mestra em Dança, Criação e Performance pelo CNDC de Angers/Paris 8 (França), desenvolveu como pesquisa a criação de uma Anatomia Delirante. Estudou práticas de anatomia experiencial no c.e.m. (Lisboa) e butô com diferentes artistas na Alemanha, França e Japão. É, desde 2017, artista associada do Centre National de la Danse (Pantin, França).