Portas Abertas: Sexo (con)sentido de Kátia Manjate

31 de julho, 19h
Espaço Alkantara
Entrada Livre

Nascida poucos anos depois da guerra da independência e no princípio da guerra civil que viria a durar 16 anos, posso afirmar que a minha primeira relação com a vida em geral foi uma relação de violência. Violência dos 500 anos de colonização, dos 16 anos de guerra civil, violência de um regime marxista-leninista.

Neste tempo, a violência é visivelmente consciente e exposta. Sentimo-la, rodeamo-nos dela, encontramos uma certa familiaridade. Uma estranha mistura de violência, ternura, alegria e tristeza, egoísmo e fraternidade, todas essas coisas que constroem certamente muitas famílias, no que diz respeito a Moçambique foi ainda mais longe, agravou-se em cada canto, ela misturou-se aos anos de guerra, “moçambicanizou-se”. Casamentos prematuros, violência doméstica, violência da guerra, violência do exílio, violência sexual, violência de palavras, gestos, olhares….

E como mulher, por apenas sermos mulheres, somos todas danificadas, desapossadas psicologicamente, sexualmente e em todos os outros níveis, e ainda assim sentimos necessidade de lutar para mudar a nossa condição. Existimos como mulheres, cada uma abandonada pelo momento.

Sexo (con)sentido, da coreógrafa moçambicana Kátia Manjate, é uma espécie de denúncia, um relato, uma experiência traumática que traz com ela questões sobre os direitos humanos, liberdade e sexualidade feminina. Sexo (con)sentido manifesta o desejo da mulher poder ser dona do seu próprio corpo e administrar as formas de prazer que lhe são importantes e satisfatórias, independentemente de opiniões morais, religiosas ou outras que atendam a alguma forma de controlo. A poética deste trabalho centra-se em movimentos conscientes e inconscientes de corpo que partem do estado emocional, a violência corporal e emocional como chamada de atenção para o corpo feminino, as mensagens que carrega e que reflexão que podemos fazer a partir daí sobre os tabus e sistemas de opressão que a sociedade foi impondo à mulher.

O universo deste projeto nasce do intimo, da experiência do quotidiano, da vivência, da essência daquilo que se vê, se diz e se mostra. Dia 31 de julho abrimos portas para a partilha.

Notas Biográficas

Katia Manjate (1984), em 1994 Iniciou a sua formação em danças tradicionais na casa de cultura do Alto Maé, e mais tarde 1999 como membro da associação grupo de canto e dança Milorho, onde foi desenvolvendo o seu trabalho como bailarina. Em 2003 continua a sua formação específica em dança contemporânea no Programa de treino profissional em dança contemporânea, organizado pela Culturarte e danças na cidade, onde recebeu uma formação profissional com vários coreógrafos nacionais e internacionais.
Actualmente desenvolve o seu trabalho como interprete e criadora. Dos seus trabalhos mais recentes destacam-se sexo (con) sentido que teve a primeira apresentação em Senegal (Dakar) e Maputo (Moçambique), e Casa criado no âmbito do Programa Pamoja, em colaboração com artista bailarina de Madagáscar ,Judith Olivia e o artista plástico Moçambicano, Válter Zand. Em 2016/7, participou no projeto transcontinental Shift Realities dos centros culturais alemães Hellerau e Tanzhaus em parceria com a Ecole de Sables. Onde co-criou a peça Fragiland em parceria com os os coreógrafos Jason Jacobs, Souleymane Ladji Koné , Anna Till.
A sua mais recente criação Life in numbers em colaboração com a coreógrafa Alemã, Anna Till, tem estreia agendada para Outubro de 2019 na Alemanha e Moçambique.
É mãe de dois desde 2006, vive em Maputo e trabalha nas áreas de coreografia, artes na educação, assim como sobre as relações entre o teatro e a dança.