Qualquer Paixão Veemente de Sónia Batista

11 – 29 de novembro
Estúdios Victor Córdon

Sónia Batista está em residência nos Estúdios Victor Córdon, no âmbito do programa EM TRÂNSITO, para trabalhar na criação de “Qualquer Paixão Veemente”, projeto coproduzido pelo Alkantara.

Em 2017 escrevi um texto que começava triste e acabava zangado. Chamava-se Querer do Corpo, Peso. O que eu queria era o peso de outro corpo que me ajudasse a sobreviver à catadupa de acontecimentos perturbadores, avassaladores que atravessavam e atravessam o mundo. Fiz esse texto ao vivo, com as mãos manchadas do sangue, falso, rosado, de tantas vozes silenciadas, ignoradas, abafadas. A seguir ainda voltei à tristeza, minha, imensa, inescapável. Mas não esqueci que, com a tristeza, com sorte, vem a zanga e com sorte vêm as ganas para lutar pelo fim do mundo. De um mundo que eu considero injusto, desigual e bruto. A resposta, acredito, é amorosa, pelo caminho do amor mas um amor interventivo, que grita, que mostra os dentes, que tira pedaço, que faz mossa, que não é bem educado nem bem comportado, que diz verdade, que diz palavrão.

Ao longo dos tempos muitos foram os que se insurgiram contra sistemas e sintomas de uma sociedade tantas vezes decadente de valores e amores. Muitos, muitas. Muitas aprenderam a gritar por cima do som dos terrores que se vão vivendo, políticos, sociais, económicos. Esses gritos são expressão de arte, de cultura, que promove o culto do fazer bem e do bem viver, com os outros, com o mundo. A zangar traz mudança, a raiva acciona-a. Tem de se destruir para criar, tem de se perder a compostura, tem de se revelar a impostura das maquinações, dos jogos de poder, tem de se fazer melhor e tem de se o dizer veementemente, sem medo da paixão evidente.

Peça de grupo que parte de pesquisa e reflexão sobre textos clássicos, textos filosóficos contemporâneos, ensaios sobre sociedade e género, sobre ecofeminismo, sobre uma vivência punk que perturba o instalado modo de viver. Peça política porque, a política, é imaginar um mundo diferente daquele onde se vive, melhor.
Dizem-nos: não fica bem falarem alto de mais. Dizemos: só nos fica bem falar alto de mais, a violência maior é o silêncio. Queremos manchar o palco com hopepunk, com essa mistura radical de optimismo alimentado pela raiva de querer mudar o status quo. Queremos dançar a raiva como nos filmes.

A Gentileza é Punk. A Compaixão é Radical. O Apreço é Subversivo.

Notas Biográficas

Sónia Baptista nasceu em Lisboa.É formada em Dança Contêmporanea pelo 
Forum Dança. Em 2001, foi-lhe atribuído o Prémio Ribeiro da Fonte de Revelação na área da Dança pelo, então,  Ministério da Cultura por Haikus, (o seu 
primeiro trabalho). Obteve, com distinção, o grau de Master Researcher in Choreography and Performance da Universidade de Roehampton em Londres, Reino Unido. No seu trabalho explora e experimenta com as linguagens da Dança,
Performance, Música, Literatura, Teatro e Vídeo. Trabalha em direcção de movimento e dramaturgia.
Para além de textos e poemas publicados em várias publicações tem já seis livros publicados.
Colabora com a CNB, com o Fórum Dança e ESTC em projectos pedagógicos.
 Dos seus últimos trabalhos destaca em 2014, In the Fall the Fox, e na
Queda Raposar, Festival Temps d’Images, 2015, A Falha de Onde a Luz,
em 2016 estreou, no Festival Alkantara, Assentar Sobre a Subida das
Águas e em 2017, Querer do Corpo, Peso, no São Luiz e Triste In English From Spanish, na Culturgest.
Ao longo do seu percurso artístico o seu trabalho foi apoiado pelo 
Ministério da Cultura/Secretaria de Estado da Cultura-DGartes,
Fundação Calouste Gulbenkian e Centro Nacional de Cultura. 
O seu trabalho tem sido apresentado em vários Festivais e Teatros em
 Portugal e no estrangeiro.
Artista Associada da AADK Portugal.