O que é que este festival tem a ver com este mundo?
Nota da direção artística

- 13.11 — 29.11 2026
O que é que este festival tem a ver com este mundo?
Em 2026 o Alkantara é um festival que começa com um fim.
É um espaço de sensualidade, onde os corpos se atraem e rodopiam.
De humor – de ironia e de ridículo – usado para desestabilizar e abrir possibilidades.
Um lugar de intimidade.
Um sítio onde há coisas muito simples e outras complexas.
E onde uma coisa pode ser várias coisas ao mesmo tempo.
Onde encontramos um leque obsceno de masculinidades: violentas, patriarcais, frágeis, contraditórias, desejadas, desviantes.
Há arquivos e imagens, cidades, viagens, pessoas e ficções que nos trazem ecos de traumas, de guerras, de impérios coloniais.
Uma colagem de pequenos e grandes absurdos. De coisas com e sem sentido.
Há figuras mitológicas. Há experiências de diásporas.
Há conhecimentos que não se expressam por palavras.
Um festival de muitas danças, vindas de muitos sítios.
De performances.
De teatro sem teatro. E de teatro que conta histórias.
E, outra vez, um lugar de acasos, de encontros, de relações.
Pela comida (no palco e fora dele), pelas obras de arte no museu, pelas festas, pelas músicas que dançamos ou cantamos no karaoke. Pelas conversas que começam antes ou que continuam depois dos espetáculos.
De espaços cheios ou vazios, que habitamos ou que percebemos que já não nos incluem – que talvez nunca nos tenham incluído.
Um festival onde coexistem fins, inícios e recomeços.
O que escolhemos guardar quando seguimos em frente?
Mas acima de tudo, este é um festival de desejo e de curiosidade. Da atração pelo que queremos conhecer melhor. Da vertigem que nos aproxima, com um certo fascínio, daquilo que não compreendemos, daquilo que não conseguimos aceitar.
Onde o desejo também nos aproxima de lugares desconfortáveis, e nos faz olhar de frente para a perversão e para a brutalidade. Um festival onde continuamos a encontrar amor. Um amor crucial, mobilizador, mesmo quando parece insuportável ou ridiculamente desajustado.
Um festival que diz: não vamos ceder ao cinismo. Não vamos desistir de tentar construir espaços onde se vive melhor, onde os encontros são possíveis e nos dão prazer.
Este festival tem alguma coisa a ver contigo? Tem alguma coisa a ver com a cidade onde vives? Com o mundo onde vives?
Nós acreditamos que sim e que no Alkantara Festival 2026 — nos espetáculos, performances, oficinas, masterclasses, conferências, festas e noites no ponto de encontro — podemos continuar a tentar, podemos celebrar os fins e testar os recomeços, mais uma vez, em conjunto.
Vamos?
David Cabecinha
Codiretor artístico
com Carla Nobre Sousa
Lisboa
08.09.2026