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ALKANARA - O que podem os corpos - ©

O que podem os corpos

Nota da direção artística

    Quando perguntámos ao coreógrafo Francisco Camacho porque achava que o Alkantara Festival era o espaço certo para apresentar o seu programa sobre o envelhecimento na dança e na sociedade, disse-nos, “sempre achei que o Alkantara era o festival do corpo político”. Isto é, um festival em que os espetáculos e as práticas do corpo não estão distantes de preocupações com o que acontece no mundo.


    O programa do Alkantara Festival 2021 é uma comunidade de corpos políticos. Corpos que podem e querem intervir sobre o presente, que querem construir futuros. Corpos que performam pela preservação de ecossistemas naturais e para novos equilíbrios sociais. Corpos que propõem novas formas de olhar para as limitações do corpo e para as suas potencialidades. Corpos que transportam histórias e experiências que precisam ser revistas. Corpos que re-contextualizam e re-imaginam espaços públicos carregados de símbolos que precisam de ser re-contextualizados e re-imaginados.


    Com este programa, procuramos participar em conversas que acontecem hoje sobre questões urgentes. Sabemos, no entanto, que há conhecimentos que se sentem, mais do que se falam. Que as experiências proporcionadas pelo festival fogem à ordem cronológica ou a possíveis enquadramentos temáticos. Como dar-vos as boas vindas ao programa deste festival? Como evidenciar a relação entre os espetáculos do programa, tendo em conta a resposta dos nossos corpos, das experiências que tivemos enquanto preparávamos esta edição?


    Há uma imagem recorrente no trabalho de Giorgia Ohanesian Nardin em que balança um cristal pendurado na ponta de um fio — um pêndulo. “Um pêndulo em vez de uma bússola," como refere no espetáculo gisher | Գիշեր:


    Na minha tentativa de baralhar orientações,
    oscilações,
    padrões circulares/diagonais/lineares
    tornam-se gramática.


    Em vez de traçarmos linhas retas ao longo do programa do festival, imaginámos como seria utilizar esta gramática — numa sobreposição de padrões desenhados a partir das tensões e energias que um pêndulo nos pode mostrar.


    Imaginem que seguramos um pêndulo sobre A Onda, de Nacera Belaza, que apesar de estar bem no meio do festival, irradia uma energia que atravessa toda a programação. A Onda é um espetáculo que acontece numa escuridão inimaginavelmente subtil. Desta escuridão, o pêndulo balança para a noite, que se diz gisher | Գիշեր em arménio, nome do trabalho que Giorgia Ohanesian Nardin nos apresenta no festival. Segundo Giorgia, este trabalho “oferece possibilidades de olhar e articular a experiência do seu corpo e da sua identidade arménia”. Numa entrevista, Dana Michel dizia que prefere abordar questões a partir do seu próprio corpo, que cria as suas peças “para que possa mergulhar nas suas inquietações e talvez encontrar respostas”. As respostas que uma peça nos pode trazer é um dos nossos interesses e a razão pela qual achámos a proposta de Vera Mantero tão cativante. Tal como muitas pessoas entre nós, a Vera precisa de encontrar maneiras de lidar com o que a assusta no mundo em que vivemos. E suspeita que talvez a melhor maneira de o fazer seja juntando opostos. Negro e branco já não são opostos no sonho radical de futuro que Sonya Lindfors apresenta. A Negritude está no centro da performance-festa de DIDI, que se apresenta no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, no Brasil. Ana Pi foca-se num elemento do espaço público que liga a cidade de Salvador, no Brasil, a Lisboa. É no espaço público de Lisboa e na sua falta de memória intencional que Irineu Destourelles desenvolve a sua performance.


    Um lance mais curto, na diagonal. Para compreender como se pode proteger o ecossistema único de rios singulares, Margarida Mendes e Maria Lúcia Cruz Correia levam-nos num passeio pelas margens do rio Tejo e Gabriela Carneiro da Cunha traz as margens do rio Xingu no Brasil até nós, no teatro. A festa de abertura MEIOFIO traz a rua para dentro do Estúdio Time Out. As festas da nossa adolescência, na viragem do milénio, aconteciam ao ritmo do hip hop. Algo que possivelmente partilhamos com Cherish Menzo que apresenta um trabalho que é uma espécie de videoclipe em câmara lenta.


    Um último balanço. Ali Chahrour conta a história de uma mãe da sua família e Clara Amaral foca-se num gesto transmitido entre avó, mãe e filha. A delicadeza das mãos da Clara faz lembrar o dedo de Chiara Bersani a chamar o olhar do público para o seu corpo sobre o qual talvez existam tantos equívocos como sobre o corpo do unicórnio. Gaya de Medeiros e Ary Zara trabalham a partir dos seus corpos — corpos trans — focando-se na boca como sítio de onde partem e se incorporam palavras. Alina Ruiz Folini e Ana Rita Teodoro procuram conhecimentos para o futuro, não pela ingestão mas pela observação e leitura de frutas e legumes. O que é certo no futuro, é que nele teremos envelhecido, o que nos faz chegar a VELHⒶS, de Francisco Camacho. Bailarinos e bailarinas com mais de 50 anos estão no centro desse espetáculo, e também no espetáculo de História(s) do Teatro II de Faustin Linyekula, que com estes corpos procura rever a história da fundação do Congo. E assim o pêndulo termina com a peça de abertura deste festival.


    Este é um dos grandes prazeres de um festival — encontrar ligações entre espetáculos, sentir as rimas de um programa, não apenas em temas ou em tópicos mas também nos ecos de palavras, nos movimentos, nos gestos e nas impressões que deixam em nós. Nas próximas semanas convidamo-vos a percorrerem este programa connosco, acrescentando os vossos próprios círculos e linhas entre dois, três ou mesmo todos os espetáculos e momentos do festival.


    Carla Nobre Sousa & David Cabecinha

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